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A Borgonha e o mito “Romanée-Conti”

9 de outubro de 2012

Os vinhos da Borgonha fascinam tanto quanto sua terra de origem, adornada por abadias milenares, cidades ducais, castelos de telhados de cerâmica, com desenhos de mosaicos coloridos, charmosos vilarejos, florestas, rios, lagos, canais e, acima de tudo, os seus vinhedos, onde o tempo parece estar em estado de suspensão.

Todo este cenário nos contagia e cria uma atmosfera serena, quase encantada, o que faz da Borgonha uma região rica de história e patrimônio e também na gastronomia, com a Mostarda de Dijon, o pain d’épices, o escargot, os queijos époisse e citeaux e os clássicos Boeuf Bourguignon e Coq au vin.

Os vinhedos da Borgonha cobrem uma superfície de 25 mil hectares, que correspondem a cinco grandes regiões produtoras: Chablis/Auxerrois, em Yonne; Côtes-de-Nuit e Côte de Beaune, na Côte d’Or; Côte Chalonnaise e Mâconnais em Saône-et-Loire, com quase 100 apelações de origem controlada.

Se, por um lado, as denominações borgonhesas são inúmeras, por outro as castas utilizadas são limitadas. Os vinhos da Borgonha são essencialmente monocastas. Os brancos são oriundos das castas chardonnay e aligotê, e os tintos das castas pinot noir e gamay. A exceção fica por conta dos vinhos
bourgogne Passetoutgrain, onde os tintos são uma mescla de pinot noir e gamay.

A Borgonha, mais do que qualquer outra região da França deve ser descoberta através dos seus vinhedos, que se confundem com suas cidades: Chablis, Morey-Saint-Denis, Nuits-St-Georges, Vosne Romaneé etc.

Cada um destes vinhedos conta e molda a história e a reputação da região (que não chega a 6% do território francês) e que tem no mítico vinhedo da Domaine de La Romanée-Conti o seu grande símbolo.

Um vinho emblemático

“Em Vosné-Romanée não existem vinhos comuns”. Esta frase pode ser dita por especialistas e enófilos de qualquer parte do mundo, mas foi escrita ainda no século XVIII por Claude Courtépée, um historiador da Borgonha. E é justamente nesta pequena cidade que se encontram os vinhedos da Domaine de La Romanée-Conti, que representam o ‘diamante’ deste abençoado trecho de terra.

Gerado por um vinhedo de apenas 1,8 hectares, delimitado no século XV pelos monges da abadia de Saint-Vivant, o Romanée-Conti é a quintessência da caprichosa uva pinot noir. Produzidas artesanalmente e seguindo os princípios da viticultura biodinâmica, as parcas seis mil garrafas de cada safra são disputadas ferozmente por apreciadores do mundo todo, levando seus preços a níveis estratosféricos.

Para o escritor de vinhos inglês Hugh Johnson, por exemplo, faltam sinônimos para definir a intensidade e o poder dos tintos engarrafados na propriedade. O polêmico crítico americano Robert Parker define a Domaine de La Romanée-Conti como a mais importante vinícola do mundo em seu livro, “The World’s Greatest Wine Estates”.

É certo que nos melhores anos, não há vinho que se aproxime em termos de intensidade de aromas, elegância, longevidade e paladar como os rótulos produzidos nos vinhedos da Domaine de La Romanée-Conti. Eu, com mais de 30 anos degustando todos os tipos de vinhos do mundo inteiro tenho fixado na memória o Romanée-Conti 1980. Inesquecível!

Muitas são as explicações que tentam dar conta dos motivos que fazem dos vinhos da Domaine de lá Romanée-Conti serem o que são. Segue uma explicação que chamou minha atenção: “Sua localização no território vinícola de Vosne é a mais adequada para a perfeita maturação das uvas; mais alta no lado oeste, recebe os primeiros raios de sol em todas as estações do ano, sendo impregnada pelo calor mais intenso do dia. (…) Não podemos negar que o vinho de La Romanée é o melhor de toda Cote D’Or, e até mesmo de todas as vinícolas da República Francesa: quando as condições climáticas permitem, este vinho se distingue dos de outros excelentes terroirs; sua cor esplêndida e aveludada, sua energia e seu buquê encantam todos os sentidos humanos. Bem guardado, torna-se muito melhor quando se aproxima de 8 a 10 anos; transforma-se então em um bálsamo para os idosos, os frágeis e os deficientes, e devolve a vida aos moribundos.” Este texto poderia ter sido escrito por qualquer especialista contemporâneo, mas trata-se de um fragmento de documento produzido durante a Revolução Francesa.

Mas existem muitos outros grandes vinhos na Borgonha, produzidos em vinhedos bastante fragmentados, o que dificultam a escolha. Diferentemente de Bordeaux, onde o nome do vinho normalmente define um proprietário, na Borgonha um vinho com um determinado nome pode ser produzido por vários proprietários, variando muito a qualidade do vinho. Assim sendo, na hora de se comprar um Borgonha, saber o nome de um bom produtor faz toda a diferença.

Alguns bons produtores de borgonhas, brancos ou tintos, disponíveis no mercado brasileiro:

Chablis – Domaine Willian Fèvre, La Chablisienne, Joseph Drouhin, Domaine Laroche e Long-Depaquit.

Tintos e brancos – Domaine De La Romanée-Conti tintos e branco, Domaine Dujac tintos e Domaine Leflaive brancos, Bernard Dugat-Py tintos e branco, Domaine Jacques Prieur tintos e brancos, Domaine Conte Georges de Vogue tintos e Domaine Méo-Camuzet tintos, Domaine des Lambrays tintos e Domaine Amiot Guy et Fils, Domaine Leroy tintos e brancos.

Poderia citar ainda muitos outros bons produtores disponíveis no mercado, mas deixo estas descobertas para vocês.

Até a próxima!

Paulo Nicolay é Engenheiro Mecânico (1978) graduado pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Engenheiro de projetos da Tecnometal Estudos e Projetos Industriais de 1978 até 1988. Sócio da WPM Consultores Associados de 1988 até 1992. Consultor e crítico de vinhos. Vice-presidente da SBAV-Rio (Sociedade Brasileira dos Amigos do Vinho) e professor do curso de pós-graduação “Vinho e Cultura” da Universidade Cândido Mendes e Wine Business, O Negócio do Vinho, da Fundação Getúlio Vargas – FGV. Crítico e colaborador de jornais e publicações especializadas em enogastronomia. Revisor técnico de editoras para publicação no Brasil de guias e livros sobre vinhos. Consultor de vinhos de importadores, hotéis e restaurantes.

Para conferir o blog do Paulo Nicolay, clique aqui.

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