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Amor e contemporaneidade: pequeno colóquio com Martin Buber

23 de outubro de 2012

Como poderíamos pensar a experiência amorosa a partir de Martin Buber, filósofo e teólogo?

A experiência amorosa trata da relação com o outro. Buber vislumbra o eu e o outro, fundados na relação, que pode se dar de dois modos fundamentais: Eu e Tu e Eu – Isso. Para Buber, não faz sentido se pensar o eu independente do outro, do mundo, da relação entre pessoas e das pessoas com a comunidade, com a natureza e com Deus.

Na relação Eu – Isso, o outro é visado como objeto, como fruição do gozo de um eu, como meio para um fim. Ele não é reconhecido em sua alteridade, senão como uma projeção de uma subjetividade que não quer do relacionamento mais do que reafirmar sua identidade, como se ela se desenvolvesse à revelia do outro e da relação.

É típico da nossa cultura narcísico-consumista a crença de que “eu me basto”. Somos educados para uma autonomia tomada como valor absoluto, uma autonomia cujo sentido foi tomado de assalto pela ideologia de nosso tempo, em que o eu, que para Buber corresponde ao modo de ser egocentrado, se quer como centro da ação, do desejo, despolitizado, desinteressado do mundo, voltado e devotado a si mesmo como fonte e fim de uma existência que se mostra malograda, na medida em que nossa existência se constitui numa rede relacional.

Certa vez, escrevemos (Veríssimo, 2010, p. 177-178):

O egótico faz parte da mentalidade do “cada um na sua”. Não faz muito tempo, notamos um anúncio de uma bebida em que aparecia uma mãe, com seus filhos no quarto, cada um na sua, e a mãe, sozinha, feliz, porque consumia o produto. O pai era uma figura ausente. O que mais importava era o produto. Os sujeitos estavam em seus cômodos, fazendo as suas coisas. Eis um dos ícones da família contemporânea. Cada um na sua, ninguém junto. Todos têm mais o que fazer, por exemplo, postar-se diante da televisão e consumir.

Agora, é a vez de examinarmos a relação Eu e Tu, título da mais conhecida obra de Buber, que se tornou referência para o seu pensamento. No modo Eu e Tu, há o reconhecimento da alteridade, da diferença. Acrescentamos nessa avaliação o cuidado, que, segundo Leonardo Boff, só é possível quando me ponho no lugar do outro. “O cuidado somente surge quando a existência de alguém tem importância para mim. Passo então a dedicar-me a ele; disponho-me a participar de seu destino, de suas buscas, de seus sofrimentos e de seus sucessos, enfim, de sua vida” (Boff, 1999, p. 91).

Chegou a vez de entrar nesse cenário contemporâneo o amor. Buber nos pegou de surpresa (confessamos) na medida em sugere que o amor não se origina no sentimento. Ele se fundamenta na relação. O sentimento é contingente, cada vez estamos submetidos aos humores que reagem as mais diversas situações. Para Buber (1977, p. 16-17), “O sentimento de Jesus para com o possesso é diferente do sentimento para com o discípulo-amado; mas o amor é um”. Os sentimentos fazem parte de nossa constituição biopsíquica, e mesmo social. O amor acontece: “os sentimentos nós os possuímos, o amor acontece”, diz ele em Eu e Tu (1977, p.17). O amor é um acontecimento. Como relação, e não qualquer relação, mas como proposição ética, ou seja, de uma práxis que se desenvolva na relação Eu e Tu, ele não pode ser medido, submetido à experimentação, antecipado ou previsto.

Isso não quer dizer que o amor prescinda de qualquer tipo de elaboração ou esforço, de doação, e até de sacrifício. Isso significa positivamente que o amor não é uma coisa, uma qualidade que seja inerente às pessoas, independente das relações que elas estabelecem umas com as outras. O amor não se constitui dentro de uma pessoa, encerrando-se como um algo referente ao mundo do psiquismo. Ele se faz entre pessoas. Esse espaço do entre é um espaço privilegiado para Buber. Sua filosofia é, por vezes, chamada de filosofia do entre, do inter-humano.

Hoje em dia, valorizam-se sobremaneira os sentimentos. Eles são propostos, aqui e ali, como o que mais importa. Os sentimentos “de cada um”, “em cada um”, “para cada um”, numa espécie de hecceidade fechada, como foi denunciado pelo famoso Beatle, George Harrison, no tema de uma música, que, numa licença para tradução, arriscamos dizer que denominou Eu, mim, meu. Em outra música, já em carreira solo, após o amargo rompimento dos Beatles, Harrison desabafa: “Não é uma pena? Não é uma vergonha? Como nós quebramos o coração um do outro, e causamos dor um ao outro. Como tiramos o amor um do outro, sem pensar em mais nada. Esquecendo de retribuir. Não é uma pena?”

Se vivemos em torno de nosso próprio ego, não saindo de relações edificadas única e exclusivamente sob bases Eu – Isso, ocupados narcisicamente com os nossos “sentimentos”, esquecemo-nos de nossa raiz e matriz como ser humano que somos: esquecemo-nos do ethos, do círculo de convivência, do quanto o diálogo nos faz na direção de dar sentido a uma práxis, vida, projeto. Buber, ciente dessas noções, que não são meras abstrações, mas sangue que corre em nossas veias e mãos que procuram mãos para tocar e sentir-se tocado, num sentido dialógico (proveniente e instituinte do diálogo).

Buber não está querendo sugerir que retiremos o sentimento, a tonalidade afetiva do horizonte da existência. Em vez, disso, trata-se de não reificar uma interioridade à revelia da trama relacional e dialogal que se abre para o ser humano a cada instante. Quando escutarmos Buber usando o termo habitar, é a ética a partir de ethos a que ele está se referindo, à abertura ao diálogo e à alteridade, cujo centro nada mais é que o próprio amor. “Os sentimentos residem no homem, mas o homem habita em seu amor. Isto não é simples metáfora, mas a realidade. O amor não está ligado ao Eu de tal modo que o Tu fosse considerado um conteúdo, um objeto: ele se realiza, entre o Eu e o Tu”. E, para encerrar, façamos nossas as palavras de Buber, pedindo licença para enxertar mais uma citação, que nos parece preciosa nesse momento.

Amor é responsabilidade de um EU para com um TU: nisto consiste a igualdade daqueles que amam, igualdade que não pode consistir em um sentimento qualquer, igualdade que vai do menor, ao maior, do mais feliz e seguro, daquele cuja vida está encerrada na vida de um ser amado, até aquele crucificado durante sua vida na cruz do mundo por ter podido e ousado algo inacreditável: amar os homens (Buber, 1977, p. 17).

Luiz José Veríssimo é Psicólogo clínico e Doutor em Filosofia (UERJ). Professor e Supervisor clínico na abordagem Existencial-Humanista na Universidade Veiga de Almeida, onde também leciona Ética. Membro do LAPSIUVA do Mestrado Profissional em Psicanálise, Saúde e Sociedade de UVA. Professor do Curso de Pós-Graduação em Psicologia Fenomenológico-Existencial da Universidade Paranaense (UNIPAR) e do Curso de Pós Graduação Lato Sensu Psicologia Junguiana, Arte e Imaginário na PUC-RJ.

Referências Bibliográficas

BOFF, Leonardo. Saber cuidar. Ética do humano – compaixão pela terra. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 1999.
BUBER, Martin. Eu e Tu. São Paulo: Moraes, 1977.
HARRISON, George. All Things Must Pass. London: Gn Records, Capital, 2001 (CD).
VERÍSSIMO, Luiz José. Ética da reciprocidade: diálogo com Martin Buber. Rio de Janeiro: Uapê, 2010.

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