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O lado pedagógico da Lava-Jato

28 de novembro de 2016

Neste artigo publicado no G1, a educadora  Andrea Ramal (Edu/2001) mostra como o ambiente de ceticismo  atual  repercute  na área da Educação,  chegando  a contaminar a tarefa das instituições de ensino.

Para muitas crianças pode parecer estranho o clima de euforia com que são acompanhadas algumas das prisões de empresários e, mais recentemente, até de líderes políticos, pela operação Lava-Jato. Afinal, para elas, habituadas aos roteiros de contos de fadas e dos filmes de mocinhos e vilões, em princípio seria natural que aqueles que transgridem a lei fossem julgados e, se necessário, condenados – sentimento do qual os adultos começaram a duvidar, depois de tantas décadas de indulgência e impunidade.

Esse ambiente de ceticismo não foi nada benéfico para a educação e, em muitos casos, chegou a contaminar a tarefa das instituições de ensino. É comum que os professores sejam colocados em xeque quando, em tom de brincadeira, as crianças dizem que “ser honesto é ser otário”. Ou quando os estudantes trazem de casa mensagens controversas, como: “meu pai sempre diz que no Brasil só os corruptos se dão bem”. É um verdadeiro desafio, na sala de aula recriada sob o pano de fundo do jornal de cada dia, ensinar e promover valores.

Nem todas as escolas e faculdades saíram ilesas desta contaminação corrosiva. Em muitas instituições, atos de indisciplina e desrespeito, mesmo quando graves, começaram a ser tratados com descaso. As crescentes agressões a professores, atos impensáveis em outras épocas e em outros países, podem ser relacionadas a essa atmosfera de “laissez-faire”. Até o nível de exigência nas avaliações anda relativizado. Alguns professores relatam que, por mais que os alunos não estudem o suficiente, em algumas instituições há uma espécie de acordo tácito para aprovar a maior parte das turmas.

Eventos análogos foram ocorrendo em outras esferas. Naturalizou-se o fato de que houvesse privilégios nas unidades de saúde pública, para antecipar cirurgias ou conseguir remédios, que houvesse benefícios indevidos e filas furadas nos processos de aposentadoria, e assim por diante.

Tudo isso é extremamente nocivo, tanto para a formação do indivíduo e do cidadão, como para a construção da sociedade, que acaba se erguendo sobre bases fraudulentas e pilares de areia.

O movimento que temos acompanhado, contra a corrente de impunidade e permissividade, é muito educativo. Mostra que o que está escrito – não só nos contos de fada, mas sobretudo nas leis – pode de fato acontecer na prática.

Dependendo da forma como essas prisões e processos forem tratados, as crianças desta geração podem aprender a fecunda lição de que o crime realmente não compensa. Por sua vez, poderão ensinar aos filhos que vale a pena seguir o caminho da decência, sem atalhos, e que um país justo é aquele onde as normas são iguais para todos. É nisso que estamos – crianças e adultos – timidamente, mas cheios de esperança, voltando a acreditar.

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