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Precisamos de mais mestres como Paulo Freire

18 de março de 2015

Andrea Ramal*

Na manifestação de domingo (15), algumas poucas faixas chamaram atenção por destoar demais dos valores de hoje, seja qual for a opção partidária. Entre elas, uma que dizia “Chega de doutrinação marxista, basta de Paulo Freire”.

Quem escreve isso certamente desconhece o valor desse grande mestre e filósofo pernambucano que revolucionou a educação brasileira ao introduzir o conceito de ensino por meio da problematização – justamente o oposto de doutrinação. Para a época, em meio ao regime militar, era algo altamente revolucionário, tanto que seus livros foram proibidos e ele foi exilado entre 1964 e 1980.

Não é exagero dizer que a educação brasileira se divide entre antes e depois de Paulo Freire. Seu pensamento é reconhecido nas mais prestigiosas universidades do mundo. Hoje, não pode ser simplesmente reduzido a doutrinas políticas.

O que Paulo Freire propõe é a educação que nos torna mais livres, tão necessária para o cidadão do século XXI. Ele chama o ensino tradicional de sistema “bancário”: o professor, dono do saber, “deposita” conteúdos na cabeça do aluno. O estudante assimila o que pode e repete na prova. A aula é enfadonha, o aluno quase não fala, sente-se um estranho. A prova é um momento de tensão. Essa pedagogia perpetua a exclusão social, aliena, forma indivíduos passivos, não muda nada.

Freire propõe outra sala de aula. Nela, professor e aluno dialogam e aprendem uns com os outros. O estudante é instigado a pensar, descobre prazer no conhecimento. A aula é dinâmica. Os conteúdos são próximos da sua realidade, pertinentes para resolver problemas concretos da vida, importantes para a sociedade. A prova avalia quanto o aluno avançou e ajuda a corrigir deficiências.

Nessa pedagogia, o conhecimento é gerador de reflexão. Nada a ver, por exemplo, com as cartilhas de alfabetização da época, onde havia frases como “Ada deu o dedo ao urubu”. Freire diz: Isso é inverossímil, pois ninguém daria um dedo ao urubu; e é distante da realidade do aluno, não ajuda a dar significado a sua vida. Então, propõe trazer a cidadania para a escola. Em vez de “vovó viu a uva na fazenda do vovô”, estudar temas como “vida”, “salário”, “terra”, “mudança”.

Podemos ser, hoje, na escola ou em casa, mestres que coloquem em prática as ideias de Paulo Freire. Construir uma educação em que se viva o verdadeiro encontro, “no qual se solidariza o refletir e o agir dos sujeitos dirigidos ao mundo para transformá-los e humanizá-los”.

Precisamos cada dia mais de mestres assim, como Freire imaginou: que façam da educação uma prática da liberdade, e não da opressão. Uma educação baseada no diálogo amoroso, consciente, respeitoso do que a criança vive e pensa. Porque o processo educativo é um laboratório do mundo: nele, pode-se aprender a aceitar as coisas do jeito que são, ou a sonhar com a construção de uma sociedade justa e solidária – essa que, ainda hoje, todos nós tanto queremos.

*Andrea Ramal é doutora em educação pela PUC-Rio e presidente da associação de antigos alunos da mesma instituição. O artigo foi publicado originalmente em seu blog no G1.


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